Assembleia CNBB: os desafios de uma sociedade em ‘policrise’

A 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)’, realizada nesta sexta-feira (17/04), foi marcado por um profundo exercício de discernimento sobre o papel da Igreja em um mundo em rápida transformação.

Por meio das tradicionais Análises de Conjuntura Social e Eclesial, o episcopado brasileiro debateu nesta sexta-feira (17), as complexidades geopolíticas de 2026 e a transição religiosa que redefine a fé no país.

A Análise de Conjuntura Social apresentou um cenário de “policrise”, onde conflitos globais e tensões domésticas se entrelaçam. O documento destacou que a ordem internacional vive uma transição para a multipolaridade, influenciada diretamente pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Esse embate, segundo a análise, gera ondas de choque que atingem desde os mercados energéticos até a estabilidade econômica brasileira.

No plano nacional, o desgaste das instituições democráticas e a polarização política foram apontados como sinais de alerta para o ano eleitoral de 2026. A Igreja observa com atenção a centralidade de temas como o custo de vida e a crise ambiental, impulsionada pelos preparativos para a COP 30, que devem pautar o debate público e a estabilidade social nos próximos meses.

Sob a condução de Dom Joel Portella, a Análise de Conjuntura Eclesial provocou os bispos a refletirem sobre a mudança no perfil do fiel brasileiro. O Brasil não se tornou menos religioso, mas a fé deixou de ser uma “herança automática” para se tornar uma escolha individualizada e fluida.

O fenômeno do “crer sem pertencer”, pessoas que mantêm símbolos e valores cristãos, mas sem vínculo com a vida comunitária, foi identificado como um dos principais desafios pastorais. Diante de identidades religiosas cada vez mais fragmentadas, a Igreja é convocada a uma “verdadeira conversão pastoral”, saindo de uma postura de conservação para uma atitude missionária permanente, focada no fortalecimento de pequenas comunidades e no acolhimento pessoal.

Para Dom Jesús María López Mauleón, bispo da Prelazia de Xingu-Tucumã, a Igreja brasileira vive um momento de encruzilhada conceitual e espiritual. Em sua análise de conjuntura, o prelado provoca, termos como “cristandade” ou “pós-cristandade” tornaram-se obsoletos. Para ele, essas categorias já não dão conta de explicar a complexidade de uma sociedade “líquida” e cada vez mais mediada pela Inteligência Artificial.

A análise de Dom Jesús toca em uma ferida aberta, a desconexão entre o rito e a vida. “Talvez doa dizer que somos muito religiosos, mas com pouca fé”, observa. Ele aponta uma contradição latente no cotidiano das paróquias, onde o entusiasmo do “Hosana” silencia rapidamente diante de um “Crucifica!”, ou, em uma linguagem mais popular, um “eu te amo”, seguido de um “mas você tem que morrer”. É o retrato de uma religiosidade que se configura mais como um sentimento individualista do que como uma consciência de pertença.

Retomando as inquietações partilhadas em Bogotá, junto à CEAMA (Conferência Eclesial da Amazônia), o bispo relança perguntas fundamentais, que modelo de leigo, seminarista, padre e bispo a Amazônia exige hoje? Embora a Igreja Católica ainda goze de prestígio social, Dom Jesús nota que, na prática, a fidelidade ao discipulado é frágil. Vive-se o fenômeno do “crer sem pertencer”, onde vozes se levantam para discordar do Papa, do bispo ou do pároco, mas raramente para se comprometer com as estruturas culturais através do Evangelho, como já pedia São Paulo VI no pós-Concílio.

A solução, segundo o bispo, não passa apenas por reformas estruturais, que pouco servem se não houver comunidades convertidas e alegres. O foco deve ser o retorno à essência do “Ide e anunciai”. Dom Jesús questiona, inclusive, a falta de mobilidade missionária dentro do próprio Brasil, como entender ministros ordenados que, configurados a Cristo, resistem a “ir” onde o anúncio do Ressuscitado é mais urgente?

O caminho proposto é claro, iluminar a caminhada através do Sínodo e das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE). Para o bispo de Xingu-Tucumã, a Iniciação à Vida Cristã (IVC) deve ser o eixo articulador de tudo. Somente através do encontro pessoal com Jesus a Igreja poderá recuperar sua credibilidade, promover a paz e ser, de fato, um sinal de unidade e comunhão na Amazônia e no mundo.

No contexto das discussões sobre o Instrumentum Laboris 2, o documento de trabalho que serve de base para as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil, uma intervenção de Dom Antônio de Assis, bispo da Diocese de Macapá, chamou a atenção do episcopado. O bispo propôs uma mudança de paradigma na introdução do texto, defendendo uma abordagem mais pastoral e menos sociológica.

Para Dom Antônio, a abertura do documento deve se distanciar de diagnósticos puramente técnicos ou listas exaustivas de problemas que afligem a sociedade e a própria Igreja. Em vez disso, ele sugere que a introdução geral assuma um caráter estimulante, animador e exortativo.

A proposta visa transformar a introdução em um convite direto aos fiéis, oferecendo incentivos que os motivem a assimilar o conteúdo e a acolher a importância das novas diretrizes para a vida cristã. Na visão do bispo, o papel inicial do documento deve ser o de despertar o entusiasmo missionário, deixando que a análise da realidade surja de forma orgânica ao longo da jornada evangelizadora, priorizando, antes de tudo, o acolhimento e a esperança.

A tarde também foi dedicada à organização interna da Conferência. Os bispos manifestaram gratidão a Dom Teodoro Mendes Tavares, que deixa a Diocese de Ponta de Pedras e a coordenação da Comissão de Ecumenismo da CNBB para assumir a Diocese de Santiago, em Cabo Verde (África).

Para dar continuidade aos trabalhos de diálogo inter-religioso, o episcopado elegeu Dom Rodolfo Weber, arcebispo de Passo Fundo (RS), como o novo presidente da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.

Apesar do cenário de incertezas, as análises concluíram com um chamado à esperança. A proposta da CNBB é que a Igreja atue como uma mediadora de paz e justiça, utilizando a criatividade missionária e a escuta ativa para responder às crises de sentido da sociedade contemporânea, reafirmando o Evangelho como um caminho de solidariedade em um mundo em constante transformação.

*Vívian Marler  - Assessora de Comunicação do Regional Norte 2

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