sexta-feira, 19 de março de 2021

Coronavírus: Como o mundo pode se curar do 'trauma coletivo' da pandemia de Covid-19

CRÉDITO,PA
Estamos vivendo o primeiro evento global de trauma coletivo em décadas. É sem dúvida o primeiro desde a Segunda Guerra Mundial, e provavelmente o primeiro dessa gravidade da sua vida.

No momento em que esta reportagem é publicada, mais de 2,5 milhões de vidas haviam sido perdidas, sendo mais de 252 mil delas no Brasil, número que aumenta aos milhares a cada dia. A economia global, as complexas redes de relações internacionais, a saúde mental individual, o vai e vem da vida cotidiana: nada foi poupado durante a pandemia.

Quando pensamos em covid-19, no entanto, o "trauma" pode não ser a primeira coisa que vem à cabeça, quanto mais "trauma coletivo". Outras referências — econômicas, políticas, ecológicas, científicas — podem parecer mais adequadas.

E mesmo dentro do campo da saúde mental, "trauma" não costuma ser o tema preferido nas discussões da mídia, que se concentram mais em outros problemas como depressão, ansiedade, solidão e estresse.

Trauma é um conceito muito mais sutil do que muitos de nós imaginam. Não é apenas uma palavra para algo extremamente estressante. Nem sempre são provenientes de choques breves e acentuados, como acidentes de carro, ataques terroristas ou tiroteios.

E trauma não é a mesma coisa que transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Trauma é sobre eventos e seus efeitos na mente.

Mas o que o distingue de algo meramente estressante é como nos relacionamos com esses eventos em um nível profundo.

Depois que a pandemia acabar, os efeitos do trauma coletivo que ela infligiu vão permanecer nas sociedades por anos.

Como podemos entender esse efeito mental? E o que a ciência do trauma sugere que devemos — e não devemos — fazer para nos curar?

O trauma pode ser entendido como uma ruptura na "construção de significado", diz David Trickey, psiquiatra e representante do Conselho de Trauma do Reino Unido.

Quando "a maneira como você se vê, a maneira como você vê o mundo e a maneira como você vê as outras pessoas" são abaladas e reviradas por um evento — e surge uma lacuna entre seus "sistemas de orientação" e esse evento — o estresse simples se transforma em trauma, frequentemente mediado por sentimentos fortes e prolongados de impotência.

Até mesmo nossas tragédias mais cotidianas podem gerar traumas. Ser demitido de um emprego, por exemplo, pode ser altamente traumático.