segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Opinião: Queiroz ressurgiu, agora só faltam as explicações

(No UOL, por Josias de Souza) 

Alvíssaras! Reapareceu o Queiroz! Mudou-se de uma moradia mambembe do Rio de Janeiro para um endereço chique, no bairro paulistano do Morumbi. A Veja localizou-o em meio a um tratamento de câncer no hospital Albert Einstein. Todo brasileiro de bem deveria rezar pela saúde de Fabrício Queiroz. Primeiro, por razões humanitárias. Depois, porque ele tem muito a explicar.

Queiroz estilhaçou o discurso arrumadinho da família Bolsonaro, encostando-o na retórica penal do PT. Jair Bolsonaro já declarou que a investigação aberta a partir da movimentação bancária suspeita que o ex-Coaf atribuiu a Queiroz é uma orquestração que usa o primogênito Flávio como degrau para atingir o pai-presidente. O problema é que há na praça farta matéria-prima para que pessoas que nunca participaram de nenhuma orquestra levem a boca ao trombone.

Um repasse de R$ 24 mil para a primeira-dama Michelle Bolsonaro acorrentou Queiroz às colunas do Planalto. O presidente da República disse ter emprestado R$ 40 mil ao Queiroz. Empréstimo feito aos poucos. Como? Não se sabe. Não há contrato nem declaração ao Fisco.

Queiroz jamais prestou depoimento. Entregou ao Ministério Público do Rio de Janeiro uma manifestação por escrito. Nela, tentou explicar, sem sucesso, a movimentação de R$ 1,2 milhão em sua conta. Nenhuma palavra sobre os R$ 24 mil de Michelle.

O ex-faz-tudo reconheceu que beliscava parte dos salários de assessores de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio. Alegou que fazia isso para pagar "colaboradores informais" do então deputado estadual. Não exibiu um mísero recibo. Tampouco anexou uma lista de nomes. Nada! A coisa ficou muito parecida com uma confissão, não com uma explicação. Flávio Bolsonaro, que também está sob investigação, saiu-se à moda de Lula. Declarou que "não sabia" da atividade de Queiroz como gerente da folha salarial do seu gabinete.

Policial militar aposentado, Queiroz já não trabalha para os Bolsonaro. Mas continua ostentando boa saúde financeira. Submete-se a um tratamento oneroso, num dos hospitais mais caros do país. Apenas a cirurgia custou-lhe R$ 136,6 mil. Pagou em dinheiro vivo R$ 64,6 mil para o hospital, R$ 60 mil à equipe médica e R$ 9 mil ao oncologista. Seu advogado explicou na ocasião que Queiroz mantinha a dinheirama em casa para quitar negócios imobiliários.

O que parece esquisito para a maioria pode ser natural para uma pessoa que foi fisgada pelo ex-Coaf como correntista atípico, dono de movimentação bancária milionária e suspeita. Queiroz tem pelo menos 1,2 milhão de motivos para cultivar essa inusitada predileção pela forma mais primitiva e insegura de poupança: o colchão.

A reaparição do Queiroz é útil para lembrar ao país que foi nesse contexto de sombras que Bolsonaro desossou o Coaf e o filho mais velho do presidente da República recorreu ao Supremo para obter de Dias Toffoli uma liminar redentora —aquela liminar que brecou os processos fornidos com dados do ex-Coaf. Enquanto o plenário do Supremo não derruba a decisão provisória de Toffoli, Queiroz percorre as ruas do Morumbi como uma bala perdida da qual os Bolsonaro tentam desviar.