domingo, 30 de junho de 2019

"As Fofocas do Intercept"

CARLOS ANDREAZZA


Jornalista formado pela PUC-Rio, Carlos Andreazza é comentarista político da Jovem Pan, colunista do jornal O Globo e editor-executivo do Grupo Editorial Record.

Uma das explicações do Intercept para a forma folhetinesca – capítulos liberados a conta-gotas – com que pinga o conteúdo das conversas que detém é o cuidado editorial no processamento e na checagem das informações; tudo para evitar imprecisões e a exposição de diálogos desprovidos de interesse público. Isso está dito.

Daí por que erros (de transcrição?) como os havidos no último pacote de divulgações – equívocos com nomes e datas – tornam o argumento frágil, pois denotam pouco apuro e reforçam a posição dos críticos segundo a qual o conjunto sob guarda do site seria suscetível a manipulações.

Mas esqueçamos, ao menos por ora, a falha editorial; esqueçamos até mesmo o fato novo – inédito – de um entre os agentes da Lava Jato captados pelo suposto hackeamento, a procuradora Monique Cheker, ter vindo a público para negar peremptoriamente, com base numa inconsistência temporal, a integridade das conversas na parte que lhe caberia.

Esqueçamos tudo isso; deixemos de lado o lapso que, para muitos, põe em xeque a credibilidade editorial do Intercept. Pensemos apenas no conteúdo das novas trocas hoje reveladas. Qual o interesse público ali identificado? Difícil encontrar. E aqui fala alguém que tratou em detalhes dos diálogos anteriormente veiculados – e neles encontrou gravidade, inclusive prevaricação de procuradores. Não é o caso agora.

Qual será a problematização possível em haver integrantes do Ministério Público preocupados com as consequências para a imagem da Lava Jato de Sérgio Moro se tornar ministro? Minha reação foi: ainda há lúcidos; ainda há quem enxergue uma obviedade. Mas: e daí?

Qual a relevância de sabermos que alguns procuradores questionavam internamente o modus operandi do magistrado, calando-se em função dos resultados, senão a de constatarmos que, para membros do MP, fins podem justificar meios? Qual a novidade, se esse vale-tudo asqueroso já restara evidente em partes anteriormente publicadas e, naqueles casos, com implicações objetivas sobre os movimentos da força-tarefa?

Como não pensar, afinal, que o que se pretendeu com a última ministração – que em tudo remete a uma fofoca – foi somente plantar discórdia entre o ex-juiz e os procuradores?

Isso é artifício do jogo político; não da atividade jornalística.

Reprodução/Fonte: blog.jovempan.uol.com.br