domingo, 20 de maio de 2018

Veto do PT a Efraim reacende embates travados entre ele e o governo Lula

O veto oposto pelo presidente do PT na Paraíba, Jackson Macedo, à indicação do ex-senador Efraim Moraes, presidente do Democratas, como vice da chapa de João Azevedo (PSB), que corteja também o apoio dos petistas para sua campanha ao governo, com o apoio total do governador Ricardo Coutinho, reproduz embates históricos que foram travados por Moraes e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, o DEM chamava-se PFL e a antipatia entre os pefelistas e os petistas era recíproca em todo o país. Efraim chegou a idealizar uma CPI dos Bingos, que respingou no Palácio do Planalto, levando o então presidente Lula a reagir ironizando que se tratava de “uma CPI do fim do mundo”. Na conjuntura estadual, petistas e ex-pefelistas nunca cruzaram os signos nas eleições.

Numa das intervenções que fez na tribuna do Senado, por sua vez, Efraim Moraes revidou declarações feitas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que “apenas Deus” poderia barrar as reformas propostas ao Congresso pelo seu governo. Conforme registrou a imprensa, Efraim rebateu que as declarações do então presidente “agridem o sentimento democrático do povo brasileiro e ferem a Constituição Federal, que enfatiza a independência e a harmonia entre os Poderes da República”. Curiosamente, Efraim foi quem deu posse a Lula, na primeira vez em que ele ascendeu ao Palácio do Planalto em 2004. O paraibano era primeiro vice-presidente da Câmara. O senador mineiro Aécio Neves (PSDB) presidia a Câmara e havia ganho as eleições ao governo das Alterosas em 2002. Teve que renunciar ao mandato parlamentar para poder comandar os destinos de Minas Gerais. Efraim foi investido na titularidade da presidência e, nessa condição, deu posse a Lula, de cujos governos foi um crítico impenitente.

A CPI dos Bingos decorreu de denúncias que circulavam na mídia, dando conta de um esquema infiltrado em estatais do governo Lula para favorecimento financeiro a um grupo que operava nos bastidores. Moraes reuniu quórum suficiente para que a CPI fosse instalada, mas os trabalhos da Comissão foram bombardeados em várias frentes por emissários do governo e pelo próprio presidente Lula, de tal sorte que foram se esvaziando e perdendo repercussão na mídia. Em relação às reformas tributária e da Previdência, que pretendia ver concretizadas, Lula chegou a afirmar que “não tem cara feia, não tem Congresso ou Poder Judiciário que impeça as reformas”. Moraes comparou as afirmações de Lula à atitude de alguns dos mais famosos ditadores da história, como Hitler, Stalin e Mussolini. “Nos regimes que comandaram, só mesmo Deus poderia valer aos seus indigitados súditos”, disse. Lula, pressionado por parlamentares da base, alegou, depois, que fora mal interpretado. Efraim dizia: “Não foi. Suas palavras, pela clareza e contundência de que se revestem, dispensam interpretações. Elas são auto-explicativas. O presidente Lula pode ter cometido um ato falho que reflete uma espécie de confissão indesejada, mas reveladora do que vai no íntimo de quem a pratica”.

Efraim ocupou a liderança da Minoria no Senado e foi, também, primeiro secretário da Mesa daquele Poder. Num pronunciamento que consta dos anais de 2003, Moraes afiançou que o governo Lula era “esquizofrênico” e dizia temer pela governabilidade do país. “O governo passa uma imagem frágil, de falta de estrutura e unidade. O presidente se elegeu acenando com um mundo melhor, mas passado um semestre desde a posse, apenas agravou o quadro preexistente”, sublinhou Moraes, arrematando: “Decididamente, esse governo não tem juízo”. O paraibano revezava-se, na crítica aos petistas e ao governo Lula, com parlamentares como José Agripino, do Rio Grande do Norte e Jorge Bornhausen, de Santa Catarina, ambos do extinto PFL, e tucanos como Arthur Virgílio e Aécio Neves. Para Efraim, o “cisma” que se delineava na base governista poderia representar uma ameaça à estabilidade. “É inconcebível lidar com um governo que é ao mesmo tempo governo e oposição a si mesmo”, ironizou o então senador paraibano, identificando “tom insurrecional” nas manifestações do vice-presidente José Alencar, que se indispunha publicamente contra a elevada taxa de juros na gestão Lula.

Nonato Guedes