sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

09 de fevereiro, feriado em Piancó em memória aos que tombaram na luta contra a Coluna Prestes

Hoje, 09 de fevereiro, é feriado na cidade de Piancó, em memória aos que tombaram na luta quando da Passagem da Coluna Prestes pela cidade. Confira um pouco da história sobre o tema... 

A marcha desencadeada de 1924 ao inicio de 1927, que percorreu 24 mil km e teve como denominação Coluna Prestes, constituiu-se na maior da historia, mais extensa ate que o movimento do tipo, promovido por Mão Zedong nos primórdios da revolução comunista chinesa. A Coluna Prestes formada, em sua maioria, por dissidentes do Exército e comandada pelo tenente Luiz Carlos Prestes, pretendia derrubar o poder constituído, arregimentando seguidores em todas as regiões 

brasileiras, com conflitos registrados nos Estados de Pernambuco, Bahia, Piauí, Ceará, Maranhão, entre outros. O descaso da Administração d Presidente Washington Luiz para com os nordestinos era a bandeira de luta dos revoltosos. O grupo rebelde utilizava-se de forças para conseguir a sua manutenção. Tomava alimento se outros pertences das comunidades, notadamente onde não encontrava resistência policial, apregoando tal atitude como um direito de sobrevivência. Esse comportamento revoltava os saqueados e provocava o abandono das casas de famílias incluídas na rota dos seguidores Prestistas, como passaram a ser conhecidos.

Na Paraíba a penetração do grupo revolucionário foi pacifica a exceção de sua chegada em Piancó, que ocorreu no dia 09 de fevereiro de 1926. Antes, porém, quando do acampamento em Coremas, coube ao Capitão Pires fazer o reconhecimento d aproxima cidade que, de acordo com informações previas, não obstacularia a passagem da marcha. Acabou sendo surpreendido em um piquete coordenado pelo sargento arruda, alvejado com tiros de rifles, saindo ferido e presenciado a morte de seu cavalo. Esse fato provocou a ira do Q. G. acampado que de pronto decidiu por uma varredura completa, sem piedade contra a localidade em evidencia. 

Piancó dispunha apenas de 12 praças um cabo, um sargento, 30 paisanos e 2 oficiais ( Manuel Marinho e Antonio Benicio). O governador do Estado João Suassuna, solicitou ao deputado Pe Aristides, chefe político do município, que convocasse a população e se unisse às forças policias, na defesa do lugar. Em telegrama enviado ao parlamentar, o Chefe do Executivo Estadual informou que o grupo dos rebeldes era reduzido, faminto, sem munição suficiente e que um grande reforço policial estava sendo encaminhado ao Vale para se unir a resistência. Um dia antes do ataque o Padre dividiu as forças disponíveis em quatro grupos instalado sem pontos estratégicos. Sobre o clima vivido na referida data, o historiador João Francisco, faz a seguinte citação: “Era anoitecer do dia 08 de fevereiro de 1926 em Piancó. Quase cessando o movimento de pessoas nas ruas da Vila. Duvida e apreensão absoluta pairava na mente de todos. Ao longe os cães latiam como que estivessem anunciando a chegada de uma pessoa estranha ou a partida de seu dono. Na Sala Principal da casa, residência do Padre e Família, os mosquitos circulavam as lâmpadas que iluminava o ambiente tenso. Sentados em circulo, o prefeito João Lacerda, seu filho Osvaldo Lacerda, Manoel Clementino (escrivão do então distrito do Aguiar), Hostilio Gambarra (distribuidor em juízo), Pedro Inácio Liberalino, José Ferreira e o Padre Aristides Ferreira da Cruz. Falava-se pouco, sempre conversas entrecortadas, nunca um dialogo demorado. Entra na sala uma senhora, de aspecto servil e em silencio, distribui café e chá aos presentes. Era dona Quita, senhora do padre e mãe dos seus quatros filhos então adolescentes: Jorge, Sebastião, Aristides e Joanita.

Novamente a sós, o silencio imperava. Aqui, acolá uma frase curta. Todos sabiam do risco de continuar na cidade. O mais sensato seria procurar sair em busca de proteção, mas longe de tentar convencer o padre dessa idéia. 

Logo um alvoroço, uma agitação e entra alguém informando a chegada do cachorro de estimação do senhor José Maria, irmão de D. Quita, e que residia em Coremas. Todos quiseram saber quem o cachorro acompanha. O temor aumentou quando s esoube que este havia aparecido sozinho. Alguém devia estar chegando do visinho município, pôr onde a coluna dos revoltosos passado naquela manha. 

As horas avançavam feito chamas. Logo Chegaria o momento da despedida, das recomendações e do adeus. Estava já acertado. Dona Quita, e os filhos e o s empregados deixariam a casa logo mais, permaneceriam o padre mais alguns amigos. Na manhã seguinte, outros que também resistiram, estavam sendo aguardados. 

Em meio a agitação gerada em torno da chegada do cachorro, surge a porta, um jovem, apressado, e pede a presença do padre. Uma vez atendido, o mensageiro se identificou e entregou-lhe um papel meio amassado e úmido de suor, com um escrito que dizia: “ Não tente resistir, é uma idéia absurda. Passa de mil homens com armamento a disposição alguns até com aparente falta de disciplina. Desde a manha de hoje Coremas foi invadida por um exercito de guerrilheiros desalmados, cruéis¨. A sala se encheu rapidamente, todos apreensivos fitavam o padre, no seu rosto um a nítida expressão de tristeza. Ele sabia, todos mais uma vez tentariam convence-lo a deixar a cidade, agora com argumento mais sensatos. A aflição do padre poderia ser notada também no semblante desolado de D. Quita e dos filhos. Todos temiam o pior. O Padre estava dominado por uma sensação de impotência. A idéia d e abandonar a cidade não era nada horroroso para um chefe político na sua envergadura. Dúvida cruel. Enquanto o seu orgulho de homem público e de defensor do povo e da cidade, forçavam-no a ficar, uma porção de medo de perder Quita e os filhos, levava-o na possibilidade de fugir. 

Os amigos foram unânimes. O Padre devia sair com a família, deixasse um grupo de homens de confiança protegendo a cidade. E instantes depois o Padre consentiu em acompanhar os seus familiares a uma fazenda distante, até os revoltosos saírem de Piancó. O temor da separação deu lugar a agitação da arrumação dos objetos que levariam na viagem. Já havia alegria entre os presentes na casa grande. As carroças e os animais que seriam usados no transporte da família foram conduzidos ate a porta da frente. 

Um levava, outro trazia, um outro escutava, mas, o Padre continuava pensativo, distante dali, alheio ao que se falava na vasta sala, pelas janelas fronteiriças seu olhar vagueava mundo a fora. O “ tigre¨ acuado em sua própria morada. Recordou o eca tombe de1922, fazia quatro anos, teve que fugir e buscar junto ao Presidente Epitácio Pessoa, seu chefe, proteção para voltar a assumir o poder do município, foi a mais cruenta e desastrosa contenda coma família Leite. Agora teria que fugir de novo. E o telegrama do governador João Suassuna?. Era a oportunidade ideal de conquistar a simpatia do governante, que por sua vez demos trava mas aproximação com os seus inimigos políticos. Não podia também decepcionar a população local, deixando que os seus bens fossem saqueados e destruídos. 

Há instantes da partida votou atrás e mudou de idéia. Bateu o pé e não saiu além da calçada para despedir-se da família. Era esperada uma reação de descontentamento dos amigos o que se deu certamente, mas não convenceu e o Padre ficou. 

O inevitável cerco aconteceu por volta das 08:00 horas da manha. Mais de mil homens revoltosos, conduzidos em cavalos recebiam a ordem para avançar contra todos os legalistas. Dois deles bem trajados e armados partem na frente e são recebido as bala pelo Sargento Manuel Arruda, que em um tiro certeiro faz um deles tombar sem vida. Estava desencadeado o maior confronto de todos os tempos, que minutos após já computavam 56 feridos de ambos os lados. A desigualdade era eminente e a ação da fuzilaria que mais parecia um rolo compressor conseguiu espantar os que ainda resistia na cidade. Completado o piquete as famílias haviam fugido e grande partes dos voluntários da luta, desertada. Somente os que ainda se encontravam na casa do Padre Aristides resistiam enquanto o cerco aumentava em proporções assustadoras, chegando a quase cem por um. O sacerdote comandava a operação quase perdida disposto a queimar o último dos seus cartuchos. Ao lado de doze companheiros fieis enpunhava uma pistola na mão direita, vestido de branco. Era mais ou menos 15:00 horas quando as esperanças começavam a dar sinais de fragilidade. Nesse momento a tentativa de atear fogo na residência utilizando gasolina era abortada com a morte do Sargento Laudelino, atingido com um abala na cabeça. Era também o instante de encarar a falta de munição para enfrentar os foras da lei. Duas bombas de gás asfixiante foram lançadas no interior da casa, provocando desmaio em Ana Maria d e Lima a senhora convidada pelo Padre para fazer a comida do povo, que a essas alturas já era tomado pó ruma enorme dor de cabeça. A invasão do recinto já estava consolidada com centenas de rebeldes arrombando as portas e janelas, se precipitando casa adentro e cumprindo a ordem de pegar a unhas o líder e seus companheiros. Começava então a “ Via Crucis¨ contra o prefeito João Lacerda e seu filho Osvaldo Lacerda; o funcionário Público Manuel Clementino e seu filho Antonio; Rufino Soares, Joaquim Ferreira, José Lourenço, Antonio Leopoldo, Juvino Raimundo, Hostilio Túlio Gambarra, Vicente Mororó e o Padre e deputado Aristides que pedi apara todos garantia de vida, o que só foi concordado até a entrega das armas pelo grupo solicitado. Os dominados são conduzidos para perto da cidade, a uma distancia de duzentos metros onde existia um barreiro, escolhido como o palco da matança. A Seqüência do sacrifício é anunciada para as centenas de Prestistas que compõem o enorme cerco. Primeiro os mais humildes, depois os comerciantes, em seguida o prefeito e pôr ultimo o Padre. Todos foram sangrados e os seus corpos jogados no pequeno depósito natural de água. Padre Aristides no entanto, antes do golpe final na goela foi esmurrado no rosto,apunhalado nas costas, no peito, em partes intimas e em pleno martírio conseguiu reafirmar a sua crença de religioso, dizendo-se um apostolo de Deus. 

O Poder destruidor da Coluna Prestes não poupou o patrimônio de Piancó. As casas foram saqueadas, os prédios públicos destruídos e incendiados com a utilização de milho seco do senhor Paizinho Azevedo, moveis do Conselho Municipal e papeis da agencia dos correios. O comercio passou por um completo processo de destruição. A população conseguiu salvar apenas a roupa do corpo. Os prejuízos foram calculado sem mais de dois mil contos. 

Dona Antonia César foi a única a mulher que ficou em Piancó no dia da chacina. Durante depoimento contou que após a tragédia se dirigiu ao local para ver o padre morto. “ Tinha um buraco medonho na goela. Metade do corpo dentro d´agua metade de fora. Quando eu reparava no corpo dele, um “ cangaceiro arrebatou o candeeiro da mão ederr4amou gás na cara do padre. Queria queimar o pobrezinho. Eu tomei o candeeiro das mãos dele. Não deixei que tocassem fogo.¨ 

Pedro Inácio foi um dos sobreviventes da chacina. Estava dentro da casa do Padre quando começou o tiroteio e viu a morte no caminho. Acabou sendo o único sobrevivente pela sorte de ter conseguido fugir sem ser notado. Foi ele o responsável pelo sepultamento dos mortos no dia seguinte.

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