domingo, 2 de julho de 2017

HISTÓRIA DE UM ADOLESCENTE INFRATOR

Acompanhado do amigo, sente-se poderoso e manda as funcionárias entregarem o dinheiro. Tudo o que ele quer é pegar a grana e sair dali o mais rápido possível. Aquele dinheiro serviria para alguns luxos, ainda que durassem apenas uns três dias: drogas, um par de tênis novo e algum trocado para a mãe. Ele não pensa no amanhã. O que importa é o agora.

O que ele não esperava é que encontraria mais alguém armado na empresa escolhida como alvo e que começaria ali uma vida bem diferente daquela com a qual estava acostumado. Um policial ou guarda à paisana disparou um tiro contra ele. Ouviu mais um disparo enquanto tentava correr. O dinheiro ficou pelo chão. O nervosismo fez as pernas amolecerem e Perdiz caiu. Na queda, o braço fino não suportou o peso da arma que acabou disparando acidentalmente. Levantou-se e conseguiu correr sem ser atingido pelos disparos. O amigo pegou um atalho e ambos chegaram até o carro que os esperava a dois quarteirões. Ele apontou a arma na direção da cabeça do motorista - irmão do amigo e que supostamente não sabia do assalto - e ordenou: "Vai, vai, vai". Os dois adolescentes teriam solicitado ao rapaz de 22 anos que os levasse até a empresa para uma entrevista de emprego.


O rapaz que estava de motorista se apavorou e bateu em outro veículo. Já era possível ouvir as sirenes. "Corre, corre, corre". Ele pulou muros, tentou se esconder na vegetação. Viaturas da Companhia de Patrulhamento Tático e o helicóptero Águia da Polícia Militar rodeavam a área. Não tinha para onde fugir. Era o fim da linha.

Ele é Perdiz, um adolescente de 17 anos que começou a cometer atos infracionais há pelo menos um ano. Aos nove, parou de ir à escola, aos 11, já trabalhava vendendo pescado com o sogro. Isso mesmo. Aos 11 anos ele conheceu a primeira e única namorada, por quem é apaixonado até hoje. Ainda muito jovem,  Perdiz teve acesso fácil à primeira droga ilícita: a maconha.

Morador da periferia de Joinville, à beira do mangue, conheceu cedo os amigos da "quebrada". Nas andanças da rua que varavam a madrugada, ganhou o primeiro papelote de cocaína. Com o tempo, conquistou a confiança dos novos "amigos". A porta estava aberta, ele já fazia parte do mundo da rua.

O salário que recebia trabalhando com o sogro não era mais suficiente para manter o padrão de vida "imaginário" vivido pelos colegas. A oportunidade de exibir um carro ainda que roubado à molecada no bairro, usar drogas, vestir uma camisa ou um boné que ele nunca teria condições de comprar saltaram-lhe aos olhos. O caminho mais fácil para conquistar estes prazeres era roubar.

Perdiz não aprendeu o que é empatia e não sabe se colocar no lugar do outro. Por isso, cometer o primeiro crime não foi difícil. Ele é frio e não pensa nas consequências. Quer diversão, vida mansa e sair por aí livre como um pássaro.
Aprendeu a se esquivar da polícia, a correr e a se esconder. Das outras vezes que foi apreendido, voltou para casa. Na penúltima, recebeu uma medida socioeducativa. Deveria se encontrar com a psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) uma vez por semana.